20 de fev de 2011

Para Maria Vitória


Amanhã faz 45 dias que você está no hospital. Desde então nossa vida mudou, e quem dirá a sua. No começo eram apenas algumas tardes fazendo companhia para alguém que logo sairia revigorada daquele lugar. Depois veio o susto e o medo absurdo de te perder. Você sabe que nunca senti isso não sabe?
As perdas do meu pai e do meu avô foram súbitas e me deixaram com o sentimento completo de dor.
Já a sua situação me deixou confusa, paranóica, nervosa. Da noite pro dia virei devota de todos os santos! Aprendi a rezar, ou melhor, a conversar com Deus. Acendi velas, dormi com meu escapulário, li salmos da Bíblia. E como a avó costuma dizer: Deus é pai, não é padastro. E então, depois de dez dias de UTI você voltou para o quarto.
Agora reiniciamos a batalha do dia a dia, tendo força e muita paciência.
E é claro, quem mais precisa disso nesse momento é você!
E estou certa tia, que paciência você tem. Aliás, esta sempre foi sua maior qualidade, da qual eu sempre invejei.
Alguém que não liga para filas no caixa do supermercado e congestionamento em horário do rush merece todo o meu respeito!
Por isso tia, estimule toda força e paciência que existe dentro de você. Tenho certeza que em breve você voltará pra casa, verá a Fofa, irá brincar como antes e dar aquela gargalhada gostosa de ouvir. Em breve estaremos tomando chimarrão na sala e fazendo planos para o futuro. Quem sabe não conversaremos sobre uma viagem que você e o tio merecem fazer. Afinal, quando foi a última vez que vocês viajaram?

Ontem, quando passei a tarde no hospital contigo também falei do meu desejo em comer aquela chipaguaçu que só você sabe fazer. Então fica combinado? Uma tarde de chimarrão e chipaguaçu!
Muito em breve você também ganhará seu segundo netinho. A Gil e o Tuco ainda não sabem o sexo do bebê, mas eu sonhei que seria uma menina. Quem sabe?
Aí você terá a possibilidade de vesti-la como me vestia na infância, com meia calça branca de bolinhas, sapatilhas, sainha e ‘frufrus’ nos cabelos.
É tia, muita coisa está por vir, inclusive o seu aniversário no dia 8 de março. Até la, quem sabe o Dr. Miguel libere um pedaço de bolo. Porque ficar sem sal e açúcar por muito tempo ninguém merece não é dona Maria?

Tia, saiba que dói, dói muito ver você nesse quarto. Apesar do ótimo tratamento, nada como a nossa casa, o nosso cantinho. Por isso meu amor, aguenta firme, continue melhorando e acredite em Deus! Sempre!

Ps. Tia querida, tia amada, estou morrendo de saudade. Tenho vontade de chorar todos os dias, mas não posso, sei que não posso. Sou bobona e manteiga derretida mesmo... Você está bem, está melhorando e eu vejo isso! Você vai sair dessa o mais rápido possível. Vai voltar a ativa, esbanjar saúde e viver muito! Muito mesmo!

Um beijo meu docinho!
Te amo!
Pra sempre!

16 de fev de 2011

Vai passar

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.

(Caio Fernando de Abreu)

13 de fev de 2011

Estranho como pequenas coisas mexem comigo.
Acho que estou ficando velha, carente ou sentimental demais.
Assistir a um filme numa tarde chuvosa de domingo parecia a solução dos meus problemas. Mas não foi.
Enquanto assistia as cenas, sabia que o final não seria feliz. E de fato não foi.
“Tudo bem, é só um filme”, disse minha mãe.
E eu sei disso. Assim como a novela é só a novela.
Mas aquela tristeza da ficção se juntou a tristeza da realidade.
De um dia cinza, sem telefonemas, sem sorrisos, sem músicas animadas, sem uma notícia realmente boa.

Mas tudo bem, é só um filme.

1 de fev de 2011



Às vezes me pergunto se não é melhor fechar a porta e deixar a chave bem guardada para o momento em que achar necessário sair. Melhor até pode ser. Mas quem consegue sair desse jeito? Quem consegue fechar a porta para os amigos, a família, os colegas de trabalho? Fechar a porta para a vida (?)
Quem consegue partir sem ser notada? O que eu queria era um ou dois dias de total solidão. Mas aí eu já sinto dor. Sei que não consigo ficar sozinha. Logo confundo solidão com saudade, medo, ansiedade. Nunca fiz a tarefa de casa sobre esse assunto, que até ontem não me afligia desse jeito.
Quero silêncio, mas quero alegria. A minha alegria. Aquela que toma conta ao receber uma ligação de alguém distante, aquela depois de assistir um filme dos bons ou escutar bem alto a música que eu adoro. A pura alegria de ver alguém se recuperando de qualquer problema, a alegria de uma boa noite de sono.
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Por que, aliás, se não fosse ela, eu já nem sei onde estaria com a cabeça...