11 de set de 2008

'Ensaio sobre a Cegueira' leva literatura de Saramago para o cinema

Hugo Cals, JB Online
A única coisa mais terrível que a cegueira é ser a única pessoa que consegue ver.
O desabafo angustiante é um dos diálogos mais marcantes da personagem da atriz Julianne Moore no filme Ensaio sobre a Cegueira, nova produção do diretor Fernando Meirelles, que estréia nos cinemas brasileiros na próxima sexta e foi o filme selecionado para abrir a edição 2008 do festival de Cannes. Inspirado no romance homônimo do autor português José Saramago, único autor de língua portuguesa vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1998, o filme conta a história de um surto de cegueira que se espalha por todo um país causando transtornos antes inimagináveis.
Uma das características do romance de Saramago, que foi roteirizado pelo canadense Don McKellar, mantida no filme é que nenhum personagem tem nome próprio: ele são mencionados através de suas características pessoais, logo os personagens principais são "O primeiro cego", "O médico" ( Mark Ruffalo), "A Mulher do Médico" (Julianne Moore, que veio ao Rio lançar o filme, a única personagem do filme dotada de visão), "A garota com óculos escuros" (a atriz brasileira Alice Braga) e "O Velho do Tapa-olho" (Danny Glover). O próprio roteirista do filme também interpreta um papel, "O ladrão", homem que rouba "O Primeiro Cego" mas acaba ficando cego também.
Completa o elenco principal o ator espanhol Gael García Bernal, que interpreta o principal vilão do filme, que se auto-proclama "O rei da ala 3". Quando o governo do país fictício (uma das exigências de Saramago para transpor seu romance para o cinema é que a trama se não se passasse em nenhum país reconhecível), não sabe o que fazer com os milhares de cegos que surgiram da noite para o dia, esse grupo de pessoas são enviadas a um sanatório para ficarem em quarentena e são distribuídos em três alas hospitalares. Cada ala elege seu representante, e o personagem de Gael, sempre transbordando sarcasmo, afirma que a ala 3 é regida pela monarquia e por isso ele é "O rei da ala 3".
À medida que o tempo vai passando, e a sociedade retratada no filme começa a entrar em colapso, com a ausência total de um Estado regulador, Meirelles consegue reconstruir, por meios de recursos cinematográficos a anarquia literária desenvolvida no universo de Saramago. Inclusive a atriz Julianne Moore abre mão de seus famosos cabelos ruivos e surge com um cabelo loiro no filme, quase branco, para ressaltar as diferenças entre clareza e escuridão, cegueira e visão.

A ausência de regras, controle, ou qualquer forma de democracia, transforma o grupo trancafiado no sinistro sanatório em seres primitivos, que abdicam de noções de cidadania e passam a ter como prioridade apenas a satisfação de desejos básicos como: fome, sede, necessidades fisiológicas e a libido. Todo esse universo é retratado na telona por meio de planos angustiantes marcados por pouca luz, sujeira e destruição.
Além disso, Meirelles mostra como os seres humanos são capazes de desenvolver sentimentos íntimos em meio a situações catastróficas: enquanto os cegos da ala 1 desenvolvem a solidariedade, ajudando uns aos outros, os cegos da ala 3, surgem como um contraponto, desenvolvendo características negativas, como o individualismo e o egoísmo. Depois que o grupo toma conta da distribuição de comida, eles passam a vendê-la aos membros das outras alas. No momento em que ninguém possui mais objetos de valor, o grupo passa a forçar as mulheres a terem relações sexuais em troca de comida.
As tomadas referentes a esta parte causaram polêmica antes mesmo do lançamento do filme por tocar em um assunto que sempre causa polêmica: o estupro. Durante o lançamento do filme no Rio, Meirelles contou que realizou sessões de teste e um número grande de pessoas deixava a sala neste momento. Com isso, o diretor amenizou a seqüência, que foi reduzida apenas a flashes de luzes e gemidos, utilizando a dialética para passar a mensagem para o telespectador: apesar de não se ver nada, quem assiste ao filme tem certeza do que está acontecendo neste momento. A intensidade da cena permanece, mas não contém o conteúdo gráfico chocante de filmes com cenas de estupro realizados anteriormente, como o clássico Laranja Mecânica e o francês Irreversível.
A literatura e o cinema são manifestações artísticas independentes, por isso é um erro afirmar que "o livro é melhor que o filme" ao avaliar um filme criado a partir de um romance. No entanto, a sensação que fica para os espectadores de Ensaio Sobre a Cegueira que já leram o livro é que Meirelles conseguiu transformar fielmente o imaginário proporcionado pela leitura em linguagem cinematográfica. Durante o lançamento do filme no festival de Cannes, Saramago, de 86 anos, queria comparecer mas foi impedido por determinações médicas. Então, Meirelles voou para Lisboa e exibiu o filme ao autor que considerou a adaptação mais do que satisfatória, classificando-a como brilhante.

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